Poluição em praia causa desconforto visual e pode trazer riscos à saúde

Faixas de sujeira conhecidas como “línguas negras” têm sido motivo de preocupação dos moradores de Areia Preta, onde moram governador e prefeito de Natal

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Os moradores e transeuntes de Areia Preta, zona Leste de Natal, têm precisado lidar com um problema desconfortável e potencialmente perigoso à saúde alheia: o surgimento de faixas de água suja – as popularizadas “línguas negras” – na extensão das praias do local. Curiosamente, é neste bairro que moram os principais chefes políticos do estado, como o governador Robinson Faria (PSD), o vice-governador Fábio Dantas (PCdoB) e o prefeito Carlos Eduardo Alves (PDT). Todos eles, todavia, ainda não agiram para resolver o problema em definitivo, deixando a população local à mercê da sujeira, uma vez que esse problema já é recorrente de vários anos.

De acordo com Nelson Freire, presidente da Associação dos Moradores de Areia Preta (Amap), a água contida nessas “línguas negras” pode variar dependendo da situação. Na maioria das vezes, a substância que forma a faixa de poluição provém da água servida, isto é, da água utilizada para lavar louça; automóveis; o chão e, até mesmo, para se tomar banho. Neste caso, o dano é apenas visual; diante de um patrimônio turístico como as praias de Areia Preta, que atrai grande quantidade de pessoas diariamente, o problema poderia afastar o público do local.

“Essas ‘línguas negras’ que periodicamente surgem na praia são oriundas de águas pluviais quando estão em excesso, provindas do bairro vizinho de Mãe Luiza, ou de água servida. As águas descem pelos canos e, quando acumulam em grande quantidade, escoam e descem na beira da praia. Quando a quantidade é grande, a água demora até dias para evaporar. Por ficarem paradas, elas adquirem essa coloração escura. Nós, moradores, observamos que em 90% dos casos, trata-se apenas da água servida ou pluvial. Quando é pouca coisa, rapidamente evapora e ninguém percebe, mas agora, em período chuvoso, ou quando se usa muita água, ai já há essa demora”, explicou.

A “língua preta”, assim, se torna mais do que uma mancha literal. Há alguns locais onde elas aparecem, mas recorrentemente abaixo da nova escadaria, onde mais se concentra, bem como em frente à Igreja São Francisco de Assis, e a próxima ao Relógio do Sol. Muito embora a feiura das praias seja o único prejuízo aparente causado pelas faixas de sujeira formadas pela água utilizada pelos moradores e da chuva, não é sempre que eles têm essa “segurança”. É em outro tipo de água, que ocasionalmente compõe a “língua”, que mora o perigo.

“O grande problema que pode acontecer, muito embora não seja frequente, é a descida da água junto com materiais dos esgotos de Mãe Luiza. Isso acontece por causa de ligações clandestinas. São casas em Mãe Luiza que, ao invés de fazerem canalização do serviço de esgoto, o fazem clandestinamente. Há, portanto, essa possibilidade de que haja vazamento desse material. Neste caso, surge o mau cheiro e ficamos muito preocupados”, contou Nelson.

A solução definitiva para o problema, do ponto de vista do presidente da Amap, seria a construção de um emissário submarino que levaria essa água escoada para um quilômetro adentro do mar. “Isso resolveria a situação. A água servida, ao invés de sair na beira da praia, desaguaria a um quilômetro de distância no alto mar. É uma obra caríssima e não há previsão ou planejamento para que ela seja feita a médio prazo. Como não há solução, a água vai continuar a descer na praia”.

Nelson Freire explicou, ainda, que os moradores e associados da Amap têm tratado, há anos, com o governo para que as “línguas negras” sejam extintas das praias. O problema, porém, tem se mostrado mais complicado do que o imaginado a princípio, principalmente pela dificuldade de localizar as casas de Mãe Luiza que possuem esgotamento clandestino.

“Temos lutado sempre. Tratamos junto à Caern e à prefeitura. Levamos, inclusive, nosso problema ao Ministério Público na área de Meio Ambiente e também ao Ministério Público Federal, que já tomou conhecimento disso. O MP de nosso estado promoveu um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre a prefeitura e a Caern para buscarem uma solução de médio prazo definitiva. Só que é muito difícil a identificação de possíveis casas que estejam fazendo ligações clandestinas, uma vez que elas se encontram debaixo da terra – esse é o grande empecilho. Por enquanto, temos que aguardar a ação do município e do estado”, concluiu.