Abandonado desde 95, antigo Hotel Reis Magos é alvo de reclamação de comerciantes de praia em Natal

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Hotel Reis Magos em Natal completa 24 anos de abandono — Foto: Leonardo Erys/G1

Envolvido em imbróglio judicial, antigo hotel de luxo da Praia do Meio está com estrutura em ruínas e sofre com a proliferação de insetos.

O antigo Hotel Reis Magos, localizado na Praia do Meio, em Natal, completa, em 2019, 24 anos desde que foi desativado. O local, inaugurado em 1965 como hotel de luxo na cidade, atualmente é alvo de um imbróglio judicial em função da possibilidade de demolição e caminha para duas décadas e meia de abandono, o que incomoda os comerciantes e moradores locais. O espaço hoje está em ruínas e sofre com a sujeira e a proliferação de insetos.

“Isso só tem servido para acumular insetos. Dá muito rato, barata e escorpião também por conta das madeiras. Além disso, quando chove, a piscina enche e os mosquitos aumentam, o que é perigoso”, reclama João Maria de Lima, o “Dão”, de 56 anos e que trabalha há 40 numa barraca próxima ao hotel. “Quando o hotel funcionava, foi uma uma época muito boa para todos nós vendedores da região”.

A reclamação é compartilhada pelo vendedor de cocos José Antônio Areias, de 54 anos, que nasceu na Praia do Meio e trabalha em frente ao local. “Hoje o que incomoda bastante é a quantidade de insetos que sai desse lugar. Tem muito rato e barata por aí”, conta.

José Antônio Areias, de 54 anos, vende coco em frente ao antigo Hotel Reis Magos — Foto: Leonardo Erys/G1

José Antônio Areias, de 54 anos, vende coco em frente ao antigo Hotel Reis Magos — Foto: Leonardo Erys/G1

Ele acredita que o espaço, caso funcionasse como hotel ou como comércio, poderia ser favorável para os moradores e trabalhadores da região. “Geraria emprego pra todo o pessoal que não tem e que mora por trás do hotel. Além disso, ia atrair mais gente para a praia, ia melhorar também para nós que somos comerciantes”, frisou.

Quem também se sente incomodado pelo abandono do lugar é o italiano Pier Luigi Bellucci, de 65 anos, que mora com a mulher Apolônia Maria da Silva, de 49, no prédio vizinho ao hotel. Ele chegou à região para fixar residência pela primeira vez em 1996, quando o hotel havia acabado de ser fechado. Desde então, ele reclama que o espaço e a própria Praia do Meio ficaram menos atrativos. “Essa área da orla da praia também era um lugar mais limpo e organizado do que é atualmente. O número de ratos hoje é muito maior não só no hotel, mas também na beira da praia”.

Apolônia também sente a necessidade de uma resolução para o espaço. “Qualquer coisa que estiver funcionando é melhor do que esse hotel aí abandonado”.

Italiano Pier Luigi Bellucci e Apolônia Maria da Silva moram ao lado do Hotel Reis Magos — Foto: Leonardo Erys/G1

Italiano Pier Luigi Bellucci e Apolônia Maria da Silva moram ao lado do Hotel Reis Magos — Foto: Leonardo Erys/G1

Como está o processo?

O Hotel Reis Magos foi comprado anos atrás pelo grupo Hotéis Pernambuco S/A, que anunciou, em 2013, que faria a demolição do prédio para a construção de um empreendimento comercial. A decisão enfrentou a resistência de parte da sociedade potiguar que defende a preservação e revitalização da estrutura por seu valor histórico, arquitetônico e simbólico.

Na época, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), do Rio Grande do Norte, entrou com um recurso para impedir a demolição e pedir o tombamento do local. Protestos também foram feitos por estudantes de arquitetura para a manutenção da estrutura e revitalização do hotel.

O processo corre atualmente no Tribunal Regional Federal da 5ª Região, em Recife, e segundo a assessoria do TRF-5 “encontra-se pronto para ser julgado, estando pendente apenas a marcação da pauta na 1ª Turma”. Governo do Rio Grande do Norte, Prefeitura de Natal e o grupo Hotéis Pernambuco S/A, atual proprietário do prédio, são os envolvidos.

Hotel Reis Magos está abandonado há mais de 20 anos — Foto: Leonardo Erys/G1

Hotel Reis Magos está abandonado há mais de 20 anos — Foto: Leonardo Erys/G1

A decisão judicial mais recente aconteceu em outubro de 2017. A Justiça concedeu um efeito suspensivo a um recurso e determinou que “o Município de Natal se abstenha de conceder licença ou autorização para demolição do imóvel onde funcionou o Hotel Reis Magos” e “que a empresa ré, Hotéis Pernambuco S/A, se abstenha de realizar qualquer ato que importe em demolição ou reforma do citado imóvel, inclusive se já expedida licença ou autorização para demolir, até ulterior deliberação judicial”. A multa pelo descumprimento é de R$ 5 milhões.

Em junho de 2017, a Prefeitura de Natal chegou a anunciar a construção de um novo empreendimento comercial pelo grupo Hotéis Pernambuco S/A. Isso porque em janeiro daquele ano, a Justiça Federal havia seguido parecer do Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte de (MPF-RN) e derrubado uma liminar, pedida pelo Iphan, que buscava o tombamento do Hotel Reis Magos.

O próprio Iphan, em maio de 2017, desistiu de impedir a demolição. Uma das alegações era de que que seriam necessárias a comprovação de articulações prévias com os proprietários, prefeitura e governo para a recuperação e preservação do imóvel após o tombamento.

Contatado, o grupo Hotéis Pernambuco S/A não atendeu às ligações do G1. A Prefeitura de Natal informou que não há atualizações sobre o processo.

O hotel

O projeto original do Hotel Internacional Reis Magos foi elaborado por uma equipe de arquitetos pernambucanos, composta por Waldecy Pinto, Antônio Didier e Renato Torres. Ele funcionou como hotel de luxo em Natal entre os anos de 1965 e 1995, quando foi desativado.

O complexo contava com 63 apartamentos, uma suíte presidencial, recepção, salões nobres, elevadores, parque aquático, sauna, playground, restaurante, estacionamento com aproximadamente 50 vagas, salão de beleza, áreas de lazer, lojas de artesanato e serviço médico.

G1