Autor da música “Nordeste Independente” defende separação depois de palavra “paraíba” dita por Bolsonaro – Confira vídeo do autor Ivanildo Vila Nova

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Autor da música Nordeste Independente, Ivanildo Vila Nova defende separação do Nordeste. Imagem: Facebook do artista

Aos 73 anos, o lendário violeiro e repentista Ivanildo Vila Nova é considerado por muitos fãs como o autor do hino de um país inexistente. Há quase quatro décadas, ele lançou a música Nordeste Independente, que foi logo censurada pela ditadura militar e liberada apenas cinco anos depois, em 1984.

Para Ivanildo, que dedicou toda a sua carreira para exaltar a região onde nasceu, a onda recente de comentários ofensivos ao povo nordestino, registrada após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, não foi uma surpresa: “Essa coisa não é de agora. Existe desde a Guerra do Paraguai. Essa separação não é só no voto. É em em quase tudo. Pra mim, não é novidade. Já nasci com essa separação”, opina.

Ivanildo foi entrevistado pelo Portal OP9 quando o presidente Jair Bolsonaro ainda era candidato. Sua defesa da autonomia nordestina volta a ganhar força a partir do episódio da sexta-feira (19), quando microfones ligados registraram a ofensiva do agora presidente contra os governadores nordestinos, região que ele chamou de “Paraíba”. O Palácio do Planalto informou que Bolsonaro não vai se pronunciar sobre a polêmica, que gerou até uma carta aberta dos governantes exigindo o tratamento devido em uma federação.

No primeiro turno, o candidato a presidente Fernando Haddad (PT) foi campeão de votos em oito dos nove estados nordestinos. A exceção ficou por conta do eleitor do Ceará, que preferiu Ciro Gomes (PDT), ex-governador do estado. O desempenho desfavorável do candidato Jair Bolsonaro (PSL) na região semeou uma sequência de ataques ao povo nordestino nas redes sociais. A Ordem dos Advogados do Brasil de Pernambuco (OAB-PE) reagiu aos comentários xenófobos e denunciou as mensagens de ódio ao Ministério Público Federal.

Escrito em parceria com o paraibano Braulio Tavares, o manifesto musical de Vila Nova é recheado de orgulho ácido, bom humor e ímpeto separatista. A letra simula a criação de um novo território contínuo, que vai do sul da Bahia ao norte do Maranhão. Mas foi o refrão, famoso na voz de Elba Ramalho, que fez os versos do violeiro de Caruaru viajarem o Brasil inteiro: “Imagine o Brasil ser dividido. E o Nordeste ficar independente”, aponta o trecho mais ufanista da canção.

Sem papas na língua, Vila Nova diz que a música famosa espelha o seu desejo de ver os nove estados da região unidos numa só nação nordestina. Considerado o maior repentista da atualidade, o músico e poeta popular afirma, sem pensar duas vezes, que o “Nordeste pagou um preço caro por fazer parte do Brasil”.

Vila Nova, que mora em Campina Grande, na Paraíba, projetava um resultado semelhante no segundo turno: “Não acho que o Nordeste tenha mudado com o PT. Mas o voto para o povo do Nordeste geralmente é popular, populista, protecionista. Não tem como ignorar essa diferença com o resto do país”.

O artista veterano, que não se considera brasileiro, e sim um “nordestino”, acredita que uma eventual independência da região traria mais desenvolvimento e qualidade de vida. “A gente viveria muito melhor. Hoje, a gente está com a mão estirada pra fora da janela. O Nordeste continua pedindo esmolas. Eles (Sul e Sudeste) têm indústrias, têm o desenvolvimento, enquanto o Nordeste tem a mão de obra desqualificada. Se você não tem independência econômica, você não tem independência política”.

Letra de Nordeste Independente

(Ivanildo Vila Nova e Braulio Tavares)

Já que existe no sul esse conceito
Que o nordeste é ruim, seco e ingrato
Já que existe a separação de fato
É preciso torná-la de direito

Quando um dia qualquer isso for feito
Todos dois vão lucrar imensamente
Começando uma vida diferente
De que a gente até hoje tem vivido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Dividindo a partir de Salvador
O nordeste seria outro país
Vigoroso, leal, rico e feliz
Sem dever a ninguém no exterior

Jangadeiro seria o senador
O cassaco de roça era o suplente
Cantador de viola, o presidente
O vaqueiro era o líder do partido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Em Recife, o distrito industrial
O idioma ia ser nordestinense
A bandeira de renda cearense
“Asa Branca” era o hino nacional

O folheto era o símbolo oficial
A moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o inconfidente
Lampião, o herói inesquecido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

O Brasil ia ter de importar
Do nordeste algodão, cana, caju
Carnaúba, laranja, babaçu
Abacaxi e o sal de cozinhar

O arroz, o agave do lugar
O petróleo, a cebola, o aguardente
O nordeste é auto-suficiente
O seu lucro seria garantido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Se isso aí se tornar realidade
E alguém do Brasil nos visitar
Nesse nosso país vai encontrar
Confiança, respeito e amizade

Tem o pão repartido na metade
Temo prato na mesa, a cama quente
Brasileiro será irmão da gente
Vai pra lá que será bem recebido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Eu não quero, com isso, que vocês
Imaginem que eu tento ser grosseiro
Pois se lembrem que o povo brasileiro
É amigo do povo português

Se um dia a separação se fez
Todos os dois se respeitam no presente
Se isso aí já deu certo antigamente
Nesse exemplo concreto e conhecido
Imagina o Brasil ser dividido
E o nordeste ficar independente

Povo do meu Brasil
Políticos brasileiros
Não pensem que vocês nos enganam
Porque nosso povo não é besta

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