Com pandemia, famílias desistem de viagens longas e preferem destinos locais

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Por causa dos riscos, as férias no exterior precisaram ser revistas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Tendência é o turista optar por deslocamentos mais curtos, privilegiando refúgio fora da cidade grande. Mas nem todos se sentem confortáveis em festejar a chegada de 2021 fora de casa

Não fosse a pandemia, a jornalista Katia Goldfarb, de 39 anos, estaria comemorando o aniversário do filho mais velho na Disney para depois embarcar em um cruzeiro pela América Central. Por causa dos riscos, as férias no exterior precisaram ser revistas. Agora, em vez de Orlando, o plano da família é passar uns dias em uma chácara em Pilar do Sul, no interior. Depois, nada de Caribe. O réveillon vai ser em Santos. Trocar grandes viagens por destinos locais foi a saída encontrada por muitas famílias de São Paulo para tentar conciliar a preocupação diante da covid-19 com o cansaço de ficar em casa. Em meio à nova alta da doença, cidades turísticas se preparam para absorver o público que costuma passar a virada fora do Estado e receber ainda mais gente do que em edições anteriores. No caso de Katia, as férias com o marido e as duas crianças, de 2 e 8 anos, foram programadas ainda em janeiro, quando a pandemia era uma realidade só do outro lado do mundo. “No começo, eu acreditava que tudo ia passar logo… É triste e frustrante porque você cria expectativa. Sabe aquela coisa de rir para não chorar?!”, comenta a jornalista, que já havia cancelado uma viagem ao Canadá em julho. Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Manoel Linhares afirma que, para o réveillon em tempos de pandemia, a tendência é o turista optar por deslocamentos mais curtos, de até 300 quilômetros, com trajetos feitos de carro. “O mais procurado neste momento é o turismo mais aberto, de praia, de serra e fazenda.” Para o setor, há expectativa de operar no limite permitido pelos protocolos e preencher todas as vagas autorizadas em cada lugar. “Não será um fim de ano de grandes festas, até porque foram canceladas para evitar aglomeração, mas o brasileiro quer dar uma fugidinha”, diz Linhares. “Em muitos destinos, os hotéis vão precisar obedecer à capacidade permitida de 60%, 80%.” Comportamento semelhante foi identificado pela plataforma de hospedagem Airbnb que, para “contribuir com estadias responsáveis”, limitou a 16 o número máximo permitido de pessoas por acomodação. “Locais com menor fluxo de pessoas, como casas de campo e em cidades menores de praia, ganharam a preferência dos hóspedes, longe de multidões ou alta rotatividade”, diz a empresa, em nota.  No Airbnb, levantamento aponta que, entre os lugares mais requisitados do País, aparecem Ubatuba, São Sebastião, Riviera de São Lourenço, Campos do Jordão, Ibiúna e Sorocaba. “Em muitos casos, são famílias em busca de um refúgio fora da cidade grande, mais perto da natureza, e, ao mesmo tempo, com boa infraestrutura (como conexão à internet)”, afirma. Outros elementos também passaram a ser mais considerados na hora de escolher o destino: “Aspectos de limpeza e higienização ganharam mais relevância na decisão dos viajantes em relação à estadia”. Cuidados Nem todos, no entanto, se sentem confortáveis para festejar a chegada de 2021 fora de casa. Por morar com os pais idosos, Flavia Brunacci Lopes, de 44 anos, decidiu quebrar a tradição de deixar São Paulo nesta época e abriu mão da viagem que planejou a Fortaleza. “Nós três já pegamos covid, mas há muita incerteza sobre reinfecção e eu preferi não os colocar em risco de novo”, relata Flavia, cujos pais, de 72 e 76 anos, fazem parte do grupo de risco. “Busquei orientação de médicos e eles dizem que ainda não é hora de facilitar.” Segundo conta, uma alternativa era o apartamento da família no Guarujá, no litoral sul paulista, que recentemente proibiu cadeiras de praia, guarda-sóis e esporte coletivo na praia. “Mas o pessoal não está respeitando muito, então achei melhor ficar em São Paulo mesmo.” Nessa terça-feira, 22, a gestão João Doria determinou que o Estado de SP fique na fase vermelha nos dias 25, 26 e 27 de dezembro e 1, 2 e 3 de janeiro após registrar aumento de internações e mortes por covid. Apenas serviços considerados essenciais poderão funcionar. A depender do comportamento epidemiológico de cada lugar, municípios também podem tomar medidas ainda mais duras. O cenário pouco animador impôs um dilema à analista de sistemas Celeste Benza, de 48 anos. Natural do Paraguai, ela desistiu de encontrar o pai no país vizinho, como fazia desde que veio morar em São Paulo, há 14 anos. “Ele já teve várias complicações de saúde e não pode ser exposto a risco”, relata. “Se algo acontecesse, eu teria um sentimento de culpa muito grande.” Também pensou em virar o ano na casa de praia, em Riviera de São Lourenço, mas o receio de aglomeração joga contra a ideia. “Só aqui no meu prédio, cinco pessoas já me perguntaram se eu queria alugar”, diz. “Muita gente está indo viajar, não sei se por subestimar a pandemia ou por cansaço. No fim das contas, acho que é uma mistura dos dois.”

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